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É comum se você está começando a estudar cinema, seja em um curso especializado ou por conta própria, esbarrar na famosa regra dos 180º. É bem simples e direta, certo? Mas há gente que prefere manter essa regra como algo que é só um guia, um lembrete, mas é muito mais que isso. Essa regra é uma ferramenta para cenas entrarem na cabeça das pessoas e elas nem saberem o porquê. Vamos começar com o básico mas prometo que no final do texto o meu ponto vai estar claro.

Pra quem não conhece, aqui uma explicação rápida (mesmo para quem sabe, é bom dar uma revisada!). Digamos que você vá filmar uma cena com duas pessoas se olhando, nem necessariamente conversando, só aquela olhada naquele momento chave da narrativa, certo? A regra dos 180º dita que uma linha imaginária deve ser traçada exatamente entre os olhos das duas pessoas, fazendo uma barreira onde a câmera não deve passar entre cortes.

Para estabelecer a direção das câmeras no outro lado das pessoas é preciso mostrar uma mudança de perspectiva, seja com um movimento de câmera ou com um motivo para cortar para o outro lado da linha.

Bom, passamos do básico, mas eu prometi mais, estamos chegando. A grande questão dessa regra é que ela estabelece a sua perspectiva na cena, isso faz com que subconscientemente a audiência esteja acompanhando a geografia da interação de maneira que ninguém se confunde, as coisas parecem mais naturais e contínuas.

Outra coisa que eu gostaria que lembrássemos é o porque essa regra funciona. Isso tem tudo a ver com outro conceito chamado eyeline, traduzindo livremente, linha do olhar. Aqui vai um exemplo (A Viagem de Chihiro, 2001, direção Hayao Miyazaki):

Estabelecemos dois personagens, já sabemos onde a linha está, mas mais importante do que isso, sabemos quem está na esquerda e direita do quadro, certo? Daí quando cortamos para cá…

E o personagem está com os olhos apontados para a esquerda do quadro, sabemos que ele está olhando para…

Chihiro. E ela está olhando para ele.

Parece simples, eu sei, e muita gente trata essa regra como uma coisa banal e esquecida no fundo do consciente gramático do cinema. Para mim, essa regra é a base de toda a gramática audiovisual. Porque mesmo quando quebramos essa regra, ou quando brincamos com ela, fazendo coisas inventivas com os personagens e a perspectiva da câmera, sempre devemos estar atentos ao que ela nos ensina.

Mais do que uma convenção, é um guia para como estabelecer o tipo mais simples de perspectiva, uma pessoa olhando para algo. Cinema é isso, não é? Nós olhando para algo que foi filmado, a câmera é nossa perspectiva, e a câmera (e logo, nós) sempre está em algum lado dessa linha, sempre. Por mais que nossa personagem esteja sozinha no quadro, ela sempre está de frente para algo, ou de lado, ou de costas. Nós olhamos para coisas, evitamos olhar ou damos as costas para algo, isso diz muito sobre quem somos e como decidimos interagir com as coisas à nossa volta, e é a mesma coisa com nossos personagens.

Não importa se é um filme live-action (filmando pessoas reais), uma animação, um vídeo do youtube, tiktok ou um videogame. Tudo tem perspectiva, e essa regra é a primeira chave para estabelecer a sua perspectiva do mundo que você está criando.

Vamos para um novo exemplo de um filme famoso hoje em dia e de um diretor que merece não só nosso respeito, mas nossa atenção e estudo. Parasita, 2019, dirigido por Bong Joon-ho:

No filme, é constantemente passada a ideia da “linha” entre patrões e funcionários. O pai da família rica no filme fala diversas vezes de como ele gosta quando seus empregados não cruzam a linha entre o profissional e o pessoal, ou seja, quando eles ficam “do lado deles”. Há uma cena que o diretor brinca com esse conceito da linha sendo atravessada, vejamos.

Nessa cena, estabelecemos cada personagem em um lado do quadro, certo? Vamos chamar a personagem da esquerda de Patroa e a da direita de Funcionária. Nessa cena a Funcionária surpreende a Patroa dizendo um segredo que era guardado a sete chaves. A Funcionária acabou de cruzar a linha do profissional e entrou na vida pessoal da Patroa, certo?

Vejamos o que o diretor faz com a câmera para demonstrar essa mudança de relacionamento entre essas personagens:

Ele corta para esse enquadramento, que está corretamente colocado dentro da linha estabelecida no plano anterior. 

Mas como demonstrado antes, ele movimenta a câmera por trás da cabeça da Funcionária, estabelecendo uma nova linha, atravessando a linha, por assim dizer.

Mas o mais interessante é como ele quebra nossa expectativa depois de fazer esse movimento tão chamativo. A maioria dos diretores faria esse movimento de câmera para marcar a transição emocional da cena e fariam o resto dela nesse novo lado da linha. Mas o Bong Joon-ho não ganhou um Oscar de melhor direção à toa, logo ele optou pelo menos óbvio, cruzar a linha, mas agora com um corte. Ele quis ser mais chamativo quando cortou:

Consegue ver a diferença?

Os olhares delas não se encontram no corte, ambas estão olhando para a esquerda e isso cria um conflito na continuidade espacial da cena na cabeça da audiência. Enquanto que onde a regra é seguida, as duas imagens fluem de uma maneira natural no nosso cérebro. Porque um diretor de tanta experiência e calibre escolheria quebrar a nossa querida regra logo agora?

A questão é que ao contar esse segredo para a Patroa, a Funcionária não só atravessou a linha do profissional para o pessoal, mas ela também adquiriu o controle da conversa e da relação entre as duas. Por isso cruzamos a linha novamente, porque duas barreiras foram quebradas, a profissional e a do poder.

É isso o que estava querendo dizer sobre o poder que essa regra têm sob a perspectiva que escolhemos para o nosso filme. Também refletir como pessoas experientes, que fazem filmes à décadas, brincam com essa regra para trazer emoções diferentes para a audiência. Isso pode ter passado despercebido para 95% das pessoas que viram esse filme, mas com certeza ficou impresso no cérebro de cada um, pensando que “algo mudou”, ou até “a outra têm o poder agora”. Essa regra pode não parecer muito de primeira, mas é um dos maiores pilares para se fazer filmes, é o sujeito e predicado da gramática cinematográfica.

Então, próxima vez que você estiver fazendo uma cena, gravando alguma coisa, pense na linha que você está traçando entre a sua personagem e o que ela está interagindo na cena. E talvez mais importante ainda, pense em o que você está colocando na esquerda e na direita do seu quadro, e fique atento(a) para onde suas personagens estão olhando, se os olhos delas estão para o lado certo do quadro.

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